Cidadezinha cheia de graça
Cidadezinha cheia de graça…
Tão pequenina que até causa
dó!
Com seus burricos a pastar na
praça…
Sua igrejinha de uma torre só.
Nuvens que venham, nuvens e
asas,
Não param nunca, nem um
segundo…
E fica a torre sobre as velhas
casas,
Fica cismando como é vasto o
mundo!…
—-
Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo ( que triste
sina!)
Ah, quem me dera ter lá
nascido!
—
Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha… Tão pequenina
Que toda cabe num só olhar
Dorme Ruazinha... É
tudo escuro!...
Dorme ruazinha…É tudo
escuro…
E os meus passos, quem é que
pode ouvi-los?
Dorme teu sono sossegado e
puro,
Com teus lampiões, com teus
jardins tranquilos…
Dorme… Não há ladrões, eu
te asseguro…
Nem guardas para acaso
perseguí-los…
Na noite alta, como sobre um
muro,
As estrelinhas cantam como
grilos…
O vento está dormindo na
calçada,
O vento enovelou-se como um
cão…
Dorme, ruazinha…Não há
nada…
Só os meus passos…Mas tão
leves são,
Que até parecem, pela
madrugada,
Os da minha futura
assombração…
Das utopias
Das utopias
Se
as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não
querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica
presença das estrelas!
Se
o poeta falar num gato
Se
o poeta falar num gato, numa flor,
num
vento que anda por descampados e desvios
e
nunca chegou à cidade...
se
falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa
antiga sacada... num jogo de dominó...
se
falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que
morriam
de verdade...
se
falar na mão decepada no meio de uma escada
de
caracol...
Se
não falar em nada
E
disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos
os poemas são de amor!
Os poemas
Os
poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no
livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam voo
como de
um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se
um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então,
essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que
o alimento deles
já estava em ti..
O Auto-Retrato
O Auto-Retrato
No retrato que me faço
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!